Publicado por: geama | 09/12/2011

Aquilo que Platão esqueceu

Como podemos ver na Introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo, Platão e Sócrates são precursores da Doutrina Espírita. Já nessa época, por volta de 300 a.C., o plano espiritual foi apresentado por Platão, discípulo de Sócrates.

Para Platão, existem 3 planos: o mundo das idéias, o mundo dos humanos e o mundo das artes. O mundo das idéias é o plano mais importante de todos, sendo o mundo humano apenas uma cópia do primeiro. Tomemos o exemplo de uma caneta. No mundo das idéias há a caneta ideal e divina, a caneta que representa a essência do que é ser caneta. No mundo humano o que há são apenas cópias dessa caneta ideal Platão foi muito criticado em suas idéias, principalmente pelo terceiro plano que falaremos agora: o plano das artes.

Se para ele o mundo dos humanos era uma imitação do mundo das idéias e, por isso, menos importante, o mundo das artes era ainda menos. Para enterdermos melhor, voltemos ao exemplo da caneta. Se um pintor decide pintar uma caneta ou um poeta escrever sobre uma, essa caneta seria uma cópia de alguma caneta humana que já era em si uma cópia da caneta ideal. Resumindo, para Platão, a arte era uma cópia de uma cópia, e, sendo assim, pouquíssimo valorizada.

Mas e se Platão estivesse errado? E se ele tivesse esquecido de alguma coisa? E se a arte for além da imitação? E se a arte, ao invés de entrar em contato com o mundo humano, entrar em contato com o mundo das idéias? Platão esqueceu a inspiração.

Claro que naquela época ele desconhecia que todos somos médiuns, e sua visão sobre arte era limitada. Mas a arte não deveria ser mais que essa cópia da cópia que Platão apresenta? Não deveria ela ser ideal e divina?

Para ilustrarmos esses questionamentos, proponho uma análise do Canto XII da Odisséia.[1] Nesse episódio, o herói grego Ulisses está passando com sua embarcação por sereias. O mito das sereias diz que o cantar delas faz com que os homens fiquem hipnotizados e caminhem até o mar, onde elas os puxam para as profundezas de modo a matá-los. Ulisses coloca cera no ouvido de todos os trabalhadores do barco para que possam continuar remando e os ordena a amarrá-lo ao mastro para que ele não se entregue ao canto.

Ulisses e as Sereias - Herbet James Draper

Esse pequeno episódio nos faz refletir profundamente sobre o papel da arte. Comecemos a análise. Ulisses é um herói grego conhecido por sua inteligência e astúcia. Essa epopéia inteira narra os grandes feitos de Ulisses por conta de sua capacidade de usar o intelecto para se livrar dos problemas e conseguir retornar em segurança para casa. Ulisses representa o racional e o egocentrismo por sua postura de dono da verdade. Ele se coloca superior aos outros humanos e podemos ver isso pelo simples fato dele não tampar os ouvidos como os outros. Não, ele era diferente. Ele, e só ele, tinha o direito de aproveitar a arte que é representada pelo canto das sereias. Os trabalhadores representam aqueles que não têm acesso à arte. Com os ouvidos tampados, eles seguem sem acesso, sem vontade. Só continuam seguindo ordens de seu superior, sem questionar. Mas e a arte, por que ela é representada por um canto que leva à morte?

Ulisses se prende ao barco. Sua racionalidade faz com que ele se prenda ao material, àquela vida que ele conhece e que ele acha ter controle. Ele se prende ao egocentrismo e se coloca no topo: se diferencia dos trabalhadores, do mar, do canto. A arte quer levá-lo para fora do barco, para fora do material. Quer fazer ele perder o controle, quer que ele saia do racional e que morra. Mas que morte seria essa? Morte do Ego. A arte quer levá-lo para as profundezas do mar, para as profundezas do seu ser. Quer tirá-lo das periferias do Ego, representado pelo barco, para que ele entre em contato com o seu Eu divino e central, sua essência.

Se a arte tem mesmo esse papel de reprentar o mundo das idéias, muito mais que o mundo humano, ela deve estar ligada diretamente com o espiritual e não o material. A arte então tem um dever muito sério. O dever de ligar o mundo humano com o mundo espiritual e fazer com que o homem se religue com Deus. A arte deve ser divina, deve trazer sentimentos harmônicos e não conturbados. Deve trazer sentimentos felizes e não depressivos. Deve, enfim, ser ativa e ter o papel de ajudar na elevação dos homens e fazer com que possamos sentir vibrações do amor maior, nos ajudando a entrar em contato com a nossa centelha divina. Como diz André Luiz, “a arte deve ser o Belo criando o Bom”, “a arte enobrecida estende o poder do amor”.

Para que possam refletir, deixo a letra de uma música espírita de Fabrício Henrique chamada Regenerarte:

Arte Expressão Divina
Dela fizeram queda dor e pranto
Esqueceram seu encanto
Senhor cante o Evangelho em nós

Eterna natureza
Eterna vibração
Chegada a novidade uma nova expressão
Fronteiras ultrapassa conduz fontes dimensões
Liga do mais longe afinidades corações

Caiam estrelas dos planetas musicais
Desçam harmonias das esferas siderais

Cântico agradeço pulsa regenerações
Façam desta natureza novas interpretações
Acorde planeta por acordes de valor
Renova Nova Era
Sê bem vindo Deus amor

Carol Barra
Equipe do Blog

Bibliografia

LUIZ, André (Espírito). Conduta espírita / ditado pelo espírito André Luiz; [psicografado por] Waldo Vieira. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1998.

ADORNO, Theodor Wiesengrund; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.


[1] A interpretação aqui apresentada foi baseada na interpretaçao do livro “Dialética do Esclarecimento”.


Responses

  1. É… Na verdade a arte não pode ser cópia da cópia, porque a arte vai no cerne da coisa em questão ou no mundo das idéias. A arte torna acessível para nós muito do que ainda não podemos alcançar do mundo das idéias. Agora fato é que temos que vigiar pois a arte hoje, traz as idéias boas e as más também! Cabe a nós escolher! Escolhas sempre escolhas…
    Parabéns pelo post Carol!

  2. Belo trabalho, pessoal!
    Vale lembrar que Emmanuel, em seu “A Caminho da Luz”, afirma que nenhum dos discípulos de Sócrates, inclusive, Platão, conseguiu representar as ideias e atitudes do grande gênio grego!
    Abraços,
    Eduardo Lyra


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