Publicado por: geama | 11/11/2011

Sobre a Pintura – Nicolas Poussin e a beleza clássica

Até o século XIX, a arte era dividida entre Belas Artes e Artes Aplicadas. Na primeira categoria estavam  a pintura, a escultura, o desenho e a arquitetura (inserida mais tarde), formas de arte que se prestavam apenas à expressão humana, ou arte pela arte, chamadas de artes maiores. Na segunda estavam todas as outras artes que se dedicavam a um fim útil, como faziam os artesãos e, hoje em dia, os designers, chamadas de artes menores. Também faziam parte das Belas Artes ou Artes maiores a música, a dança e a poesia, no entanto o termo Belas Artes acabou se afinizando mais àquelas ligadas às artes pictóricas.

Museu Nacional de Belas Artes - RJ

Hoje essa divisão se perde um pouco, pois, em meio à globalização do mundo, qualquer idéia de divisão é lida como preconceito, exclusão ou sectarismo. O Centro Universitário Belas Artes de São paulo, por exemplo, oferece cursos de graduação em Design de Interiores, Design de Moda, Design Gráfico, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV, entre outros.  Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Escola de Belas Artes abarca os cursos de Desenho Industrial, Artes Cênicas, Composição de Interiores, Composição Paisagística, etc ao lado dos cursos de Pintura, Escultura, Gravura. Fica claro que essa idéia de “artes superiores” foi ultrapassada.

Entre as antigas Belas Artes, está a pintura, que hoje já ganhou sua versão digital graças às incríveis possibilidades que tablets e softwares permitiram aos artistas, como o Photoshop e o Corel Painter. Para os escultores também já existem os modeladores digitais, como o 3D Max, o Maya e o ZBrush.

Pintura digital

Graças às mais variadas formas de mídia, alguns pintores acabaram se destacando mais do que outros, no entanto há diversos deles que, apesar de completamente desconhecidos para os leigos, adquiriram profundo respeito entre seus iguais. Um desses nomes foi Nicolas Poussin. Em meio ao século XVII, com toda a dramaticidade do estilo Barroco se disseminando pela Europa, este pintor francês se dedicou à delicadeza, à sutileza e ao equilíbrio clássico em suas telas.

A Descida da Cruz - Caravaggio - o barroco italiano com todo seu vigor e exuberância

Poussin chegou à Roma em 1624 e se deparou com grandes nomes do barroco italiano, como os pintores Ticiano, Domenichino e Guido Reni, o escultor Bernini e o arquiteto Borromini. Contudo, Poussin não se sentia ligado a este estilo e acabou se afiliando a uma academia informal que pretendia ir contra o barroco, formada por artistas e patronos das artes. Acabou conhecendo outros pintores que também mantinham alguns dos conceitos renascentistas e que se detinham à buscar a beleza clássica, o que lhe permitiu alavancar sua carreira.

De volta à França, Poussin recebeu o título de Primeiro Pintor da Ordem por Luís XIII e pode produzir diversas pinturas que tinham sempre em comum a leveza, o equilíbrio e a clareza.  Entre essas obras está A Última Ceia, que vemos abaixo.

A Última Ceia - Nicolas Poussin

De volta à Roma, em 1642, Poussin continuou a pintar, sendo contratado diversas vezes. Algumas das obras produzidas nesta fase são: Paisagem com Diógenes, a segunda série de Os Sete Sacramentos, Visão de São Paulo e Sagrada Família, que vemos abaixo.

Paisagem com Diógenes - Nicolas Poussin. O momento em que o filósofo grego se desapega de seu último bem, seu copo, e bebe água com as mãos

Os Sete Sacramentos: Casamento - Nicolas Poussin

A Visão de São Paulo - Nicolas Poussin

Sagrada Família - Nicolas Poussin

A partir de 1650, Poussin começou a ter sua saúde abalada e, mesmo trabalhando com dificuldade, conseguiu pintar mais algumas obras. Acabou desencarnando em 1665, com 71 anos, deixando um patrimônio de beleza na arte e na história, narrado em suas telas espalhadas por museus e galerias pelo mundo.

***

Em 1862, a Sociedade Espírita de Paris publicou na Revista Espírita duas comunicações de um espírito que se apresentou como Nicolas Poussin e trouxe, através do médium Sr. A. Didier, belos ensinamentos sobre a arte e a pintura.

O REALISMO E O IDEALISMO NA PINTURA (parte I)

A pintura é uma arte que tem por objetivo retraçar as cenas terrestres mais belas e mais elevadas e, algumas vezes, simplesmente imitar a Natureza pela magia da verdade. É uma arte que, por assim dizer, não tem limites, sobretudo em vossa época. A arte de vossos dias não deve ser apenas a personalidade; deve ser, se assim me posso exprimir, a conseqüência de tudo o que foi na História, e as exigências da cor local, longe de entravar a personalidade e a originalidade do artista, ampliam-lhe a vista, formam e depuram seu gosto e o fazem criar obras interessantes para a arte e para os que nela querem ver uma civilização caída e idéias esquecidas.

A chamada pintura histórica de vossas escolas não está em consonância com as exigências do século; e – ouso dizê-lo – há mais futuro para um artista em suas pesquisas individuais sobre a arte e sobre a História do que nessa via onde dizem que comecei a pôr o pé. Só uma coisa poderá salvar a arte de vossa época: um novo impulso e uma nova escola que, aliando os dois princípios que dizem tão contrários – o realismo e o idealismo – induza os jovens a compreender que se os mestres assim são chamados, é porque viviam com a Natureza e sua imaginação poderosa inventava onde era preciso inventar, mas obedecia onde era preciso obedecer.

Para as pessoas ignorantes da ciência da arte, muitas vezes as disposições substituem o saber e a observação. Assim, em vossa época vêem-se em toda parte homens de uma imaginação deveras interessante, é certo, mesmo artistas, mas não pintores.

Estes não serão contados na História senão como desenhistas muito engenhosos. A rapidez no trabalho, a apreciação crítica do pensamento se adquire paulatinamente pelo estudo e pela prática e, a despeito de se possuir essa imensa faculdade de pintar depressa, ainda é necessário lutar, sempre lutar. Em vosso século materialista, a arte – não o digo sob todos os pontos de vista, felizmente – materializa-se ao lado dos esforços verdadeiramente surpreendentes dos homens célebres da pintura moderna. Por que essa tendência? É o que indicarei na próxima comunicação.

Auto-retrato de Nicolas Poussin em 1650

O REALISMO E O IDEALISMO NA PINTURA (parte II)

Como disse em minha última comunicação, para bem compreender a pintura seria necessário ir, sucessivamente, da prática à idéia, da idéia à prática. Quase toda a minha vida passou-se em Roma. Quando eu contemplava as obras dos mestres, esforçava-me por captar em meu espírito a ligação íntima, as relações e a harmonia do mais elevado idealismo e do mais verdadeiro realismo. Raramente vi uma obra-prima que não reunisse esses dois grandes princípios. Nelas via o ideal e o sentimento da expressão, ao lado de uma verdade tão brutal que dizia a mim mesmo: é bem a obra do espírito humano; é bem a obra, concebida e depois realizada; é bem a alma e o corpo: é a vida integral. Via que os mestres de idéias e compreensão débeis, o eram em suas formas, em suas cores, em seus efeitos. A expressão de suas cabeças era incerta e a de seus movimentos, banal e sem grandeza. É necessária uma longa iniciação na Natureza para bem compreender os seus segredos, os seus caprichos e as suas sublimidades. Não é o pintor quem o quer; além do trabalho de observação, que é imenso, é preciso lutar no cérebro e na prática contínua da arte; num dado momento é necessário trazer à obra que se quer produzir os instintos e o sentimento das coisas adquiridas e das coisas pensadas; numa palavra, sempre esses dois grandes princípios: alma e corpo.


Nicolas Poussin

Fontes:
– Revista Espírita 1862 (http://www.febnet.org.br/gerenciador/pdfRepository/2009-11-20-18.8ef8f0387d1ab3247933843463702901.pdf#search=131)
– EBA-UFRJ (http://www.eba.ufrj.br/index.php?option=com_content&task=view&id=85&Itemid=112)
– Belas Artes SP (http://www.belasartes.br/cursos/cursos.php)
– Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Belas_artes)
– Enciclopédia Itaú Cultural (http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=6177)
– Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/3D_computer_graphics_software)
– Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Baroque)
– Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Nicolas_Poussin)
– Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Classicism)
 

André Luís Corrêa
Equipe do Blog


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