Publicado por: geama | 11/02/2011

Da TV para o Blog

Desde os primórdios, a dramaturgia é uma importante ferramenta de comunicação. Onde muitos enxergam apenas um momento de lazer, para outros está a oportunidade de informar, instruir, ensinar e até mesmo evangelizar.

E quando falamos de dramaturgia, principalmente no Brasil, não podemos deixar de citar as telenovelas. Surgidos na década de 50, esses “folhetins eletrônicos” entraram em nossas casas e em nosso dia a dia com seus personagens e histórias emocionantes, divertidas e intrigantes.

ara nós, do movimento espírita, uma novela em particular marcou história. A Viagem, escrita por Solange Castro Neves e Ivani Ribeiro, foi exibida em 1994 e contou com 167 capítulos que narravam as aventuras e desventuras de Alexandre, Dinah e Otávio Jordão, entre tantos outros.

Por causa disso, o blog do GEAMA procurou a novelista Solange Castro Neves e elaborou dez questões, que foram gentilmente respondidas e servem como um rico material para todos que trabalham ou pretendem trabalhar com dramaturgia.

Com a palavra, nossa entrevistada, Solange Castro Neves.

1. Como foi o processo de pesquisa e de estudo para escrever a novela ‘A Viagem’, que abordava o Espiritismo de forma tão direta?

SOLANGE: Na Viagem, procurei vários pontos de vista para que eu pudesse encontrar o meio termo e não dar motivos para que a imprensa e nem religiosos se voltassem contra a novela. Para tanto, tinha o apoio da U.S.E. (União das Sociedades Espíritas de São Paulo); apoio da Ordem Rosacruz; da Umbanda; Candomblé e dos seguidores de mesa branca de Allan Kardec. Graças a isso, não tivemos, no decorrer da novela, nenhum problema. Na novela Mulheres de Areia, tive uma série de denúncias e ameaças por causa de um colar de Iemanjá que um personagem usava, sendo esse um homem sem escrúpulos e vivido pelo excelente ator Paulo Goulart, que era um dos vilões da história. Por causa desta experiência, aprendi a ir fundo nas pesquisas para não cometer o mesmo erro.

2. Durante a novela ‘A Viagem’ a equipe recebeu alguma mensagem espiritual sob forma de orientação? E sob forma de inspiração, você se sentia conduzida ou intuída?

S: Muitas vezes, principalmente quando trabalhava de madrugada e a canseira batia muito forte, eu sentia uma força que não era minha e a inspiração brotava rapidamente, ajudando-me a terminar o trabalho. A equipe de gravação, os atores e o Wolf Maia, quando havia o trabalho de obsessão na mesa, eu instruía as orações dos guardiões dos quatro cantos da sala, com alguns sinais de proteção para que não houvesse nenhuma surpresa desagradável. O ator Cláudio Cavalcanti, que era ateu e não acreditava em nada, em uma das vezes não seguiu à risca as instruções e neste dia, quando chamaram o espírito obsessor (Guilherme Fontes), a janela atrás do ator (Cláudio) se abriu, uma ventania balançou a cortina que pegou fogo através do incenso que estava aceso. Uma pequenina chama. Todos se assustaram e o Cláudio me ligou preocupado e desde então começou a ler os alguns livros de Chico Xavier e Allan Kardec.

3. Como você analisa o crescente interesse do público por obras audiovisuais com temática espiritualista, como os filmes Nosso Lar, Chico Xavier e a novela Escrito nas Estrelas, entre outras?

S: Acredito que o público está carente e repleto de questionamentos sem respostas porque a religião católica que supria, antigamente, a fé cega, hoje perdeu muito espaço. A explicação para entender a desigualdade, a violência, a falta de amor, a impunidade dos ímpios, a miséria, as drogas… só encontraremos na espiritualidade através da reencarnação. Se há um Deus, um Pai Maior, ele deve ser justo com todos os filhos e para tanto, precisamos entender que a vida terráquea é uma grande escola onde cada um está vivenciando fatos, situações que ajudem em sua evolução espiritual. Por isso, Kardec dizia: “Quando estivermos diante de um grande obstáculo ou de uma grande tragédia, não devemos nos perguntar por que, mas sim PARA QUÊ”.

4. Sabemos que novela é um trabalho feito em equipe, num processo longo e desgastante, que dura meses. Qual qualidade poderíamos apontar como sendo essencial para um grupo trabalhar de forma coesa e em harmonia?

S: Primeiramente a confiança, a lealdade, a cumplicidade e a vontade de todos trabalharem coesos, num ambiente de harmonia, procurando levar as dificuldades com humor. O roteirista tem que ter muita perseverança, disciplina e consciência de que, durante 6 a 8 meses, ele terá que abdicar de sua vida pessoal pois estará completamente envolvido com os personagens que rodeiam a sua mente o tempo todo.

5. Emannuel, espírito que trabalhou com Chico Xavier por muitas décadas, disse ao médium mineiro que ele precisaria de 3 qualidades para se tornar um bom trabalhador: disciplina, disciplina e disciplina. Se pudéssemos apontar três qualidades essenciais para se tornar um autor, seja para TV, cinema ou literatura, quais você destacaria?

S: Disciplina é essencial, perseverança, jogo de cintura e, o mais importante, é não perder a faculdade, o dom de alçar grandes vôos e não ter vergonha de deixar as emoções falarem por si.

6. Você criou ou ajudou a imortalizar grandes personagens do mundo das novelas. Como é o processo de construção, pelo autor, dessas personagens?

S: Cada experiência é única. Em Mulheres de Areia, baseei o Tonho da Lua na experiência que tive trabalhando anos na APAE, com crianças excepcionais. Para que o personagem tome vida e crie um entrosamento com o público, é preciso que o autor faça uma longa pesquisa. Apesar de ser uma obra de ficção, a realidade precisa sobressair. Em Que Rei Sou Eu, o Stenio Garcia seria um dos três mosqueteiros. Como eu o admirava demais, achei o papel pequeno e então sugeri ao Cassiano Gabus Mendes que aumentasse seu papel. Assim, inventei o Bobo da Corte, no qual tive de fazer longas pesquisas para saber exatamente o que fazia um bobo da corte, na época.

7. Você fez grandes adaptações ou remakes, como ‘A Viagem’ e ‘Mulheres de Areia’. É mais fácil criar uma história ou adaptar? E por que?

S: Confesso que escrever a sua história é muito mais fácil, pois você é o dono. Em uma adaptação, você tem que criar uma nova história, mas sem quebrar a espinha dorsal da pré-existente. Se fizer isto, não dará certo, pois ela é o fio condutor da história e é preciso que seja fiel a ela, mesmo que mude as tramas paralelas ou acrescente novas roupagens aos personagens. Pode criar até novos núcleos, mas sempre respeitando a idéia central do autor original.

8. Todos os dias milhões de pessoas estão sintonizadas em uma ou mais novelas. Algumas correntes classificam as novelas como meros produtos de entretenimento. Outros as vêem como potenciais ferramentas de formação e criação de valores para a sociedade. Qual a sua opinião sobre o papel da novela na sociedade?

S: Para mim, a novela tem a obrigação não só de entreter os telespectadores, mas deve passar conceitos e, se possível, provocar algumas reflexões que façam com que o público seja obrigado a refletir sobre suas vidas. O autor não pode esquecer de que ele invade, com a sua história, milhares de lares. Então ele tem sim a responsabilidade sobre o que está levando ao ar.

9. O que não pode faltar numa boa história e o que não pode haver de jeito algum?

S: Uma história precisa de conflitos, obstáculos, tristezas, alegrias, amores, desamores, muita ação e mistério mas, principalmente, tem de haver a emoção exata para tocar o espectador. Só assim conseguimos fazer o povo rir, chorar, sonhar, amar, etc.

Acredito que não possa haver imagens, cenas que violentem, ou seja, de um realismo exacerbado que possa chocar o telespectador. O autor tem de respeitar o seu público.

10. Deixe uma mensagem para o grupo, seja uma dica, um conselho ou uma frase inspiradora.

A vida é uma oportunidade, agarre-a.

A vida é uma beleza, admire-a.

A vida é ventura, saboreie-a.

A vida é um sonho, faça dele realidade.

A vida é um desafio, enfrente-o.

A vida é um dever, cumpra-o.

A vida é um jogo, jogue-o.

A vida é preciosa, cuide bem dela.

A vida é uma riqueza, conserve-a.

A vida é amor, goze-o.

A vida é um mistério, penetre-o.

A vida é uma promessa, cumpra-a.

A vida é tristeza, supere-a.

A vida é um hino, cante-a.

A vida é um combate, aceite-o.

A vida é uma tragédia, enfrente-a.

A vida é uma aventura, ouse-a.

A vida é felicidade, mereça-a.

A vida é a vida, defenda-a.

“Muito além do Amor”, de Dominique Lapierre.


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