Publicado por: geama | 21/01/2011

Espírita, mas não Espírita: O Homem; As viagens

O texto da coluna de hoje será do Carlos Drummond de Andrade e traz um assunto muito importante: autoconhecimento.

O poema de Drummond nos mostra que o lugar em que estamos ou as conquistas que temos não importam, mas sim a conquista e o conhecimento de nós mesmos, que podem fazer com que convivamos bem e sejamos felizes.

O Homem; As viagens

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena as suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto – é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

ANDRADE, Carlos Drummond de. A palavra mágica. 10. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. P 81-3.

Que possamos cada vez mais nos conhecer, nos “experimentar”, nos “humanizar” e descobrir em nós mesmos a capacidade de amar e evoluir.

Carol Barra
Equipe do Blog


Responses

  1. Eita sábias palavras. Muito bom! E vamos voltando aos nossos afazeres, pois temos muito o que ter e nem lembramos de ser. Grande marasmo, seguir a mesma vida de sempre e que todos têm… Prefiro o diferente.

  2. Carol, amei esse texto! Por esses e outros que eu sou super fã do Drummond.


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