Publicado por: geama | 18/09/2010

Mãos na Obra: Momento com Deus

Olá, amigos leitores do Blog do GEAMA. Que a paz do Cristo esteja convosco.

Em geral essa coluna do blog traz sempre textos reflexivos acerca do trabalho voluntário espírita e do que encontramos quando desejamos trabalhar com juventudes espíritas e grupos de arte espírita. Hoje porém eu trago um texto, não menos reflexivo, mas que servirá, se assim Deus permitir, para tocar no coração de cada um, trazendo as mais sublimes recordações de nossos momentos antes de voltarmos à matéria. Lembremos o papel que viemos desempenhar na superfície deste planeta e, mais do que tudo, humildemente trago um pouco da consolação divina com a qual pude sintonizar por ínfimos minutos.

“Devido a necessidades, que agora não vêm ao caso, travei hoje com o querido irmão, Gutemberg Paschoal, longo diálogo sobre a Arte Espírita. Prazerosos momentos, nos quais deleitei-me com a harmoniosa percepção, a qual o irmão amado conquistou através destes parcos anos na Terra, aventurando-se pelas matas da música. Por entre os açoites juvenis de minha parte e os questionamentos infindáveis que guardo nos recônditos mais distantes de minha mente, ele seguia calmo e brando no falar, no pensar e o diálogo se tornou um aprazível infinito do dia.

Feitas as despedidas, com muito amor, firmamos votos juntos pelo compromisso de amaciarmos o campo da Arte Espírita para os novos artistas que hão de chegar. Percebemos, juntos, a grande responsabilidade dos que, hoje, se encarregam de tal função. Adentramos o século onde a Terra será renovada em sua essência e estamos aqui agora, como outrora em outros grandes momentos da nossa História terrena, mas hoje erguendo a bandeira do Espiritismo e buscando amparo dos bons Espíritos.

Desliguei o telefone… Fui tomado de silêncio profundo. Questões internas se avolumavam, perguntas dominavam por completo minha mente. Sentia algo diferente em mim… O que seria isso?

Frente à frente com o infindável mundo da rede mundial, percorri alguns lugares, cavei fundo em outros, li e reli. O que é isso? O que é essa tal Arte da qual nos falam os Espíritos que se apresenta à nossa porta e da qual não dispomos da chave para abri-la? Tomado de angústia, corri à estante de livros. Precisava me consolar nas palavras dos Espíritos. Tomei em mãos o volume “Arte e Espiritismo”. Avancei as páginas e, tão logo bati os olhos no nome de Mozart, passei a ler cada linha com todas as minhas energias. Não havia mais nada além das palavras de Mozart, Chopin e Rossini. Lá estava o estudante inconsolável à beira do abismo do desconhecido e do não-sentido.

Meu Pai… Quão mesquinhos somos nós! A angústia de Rossini por não conseguir concretizar suas explanações sobre a Harmonia chegavam a torcer o meu coração e cortar minha mente em pedaços. Um verdadeiro abismo de sentimento e de saber eu vislumbrava entre as pobres expressões linguísticas de Rossini e o meu coração. Fiquei ali imaginando, supondo poder alcançar o que ele, de fato, quisera dizer. Tolos os homens que acham saber o que seja isso e perdem-se em palavras vazias de sentimento.

O homem que se abre para a Harmonia é tomado de um sentimento que o desmaterializa e, como numa prece, o coloca em contato íntimo com Deus. Mas como sentir tal harmonia? Como alçar esse vôo?

Páginas e páginas lidas, tomei em mãos o volume “Espiritismo na Arte” e travei um breve diálogo mental com os ensinamentos dos Espíritos sobre a música.

Sim! Tudo fazia sentido! Tudo era claro! Mas onde estava isso? É como se, após a leitura de um manual sobre como operar um aparato eletrônico, eu não o tivesse em mãos para usufruir e testá-lo com toda a minha sede de saborear. Fechei os livros, depositei-os na estante e voltei-me ao escritório. Eu queria saber o que era isso de que eles falavam… O que era essa dor da pequenez que o homem sente quando se coloca em intimidade com o Criador…

Olhei o monitor, que cedia aos meus olhos imagens de belas obras de Van Gogh, e abri meu depositório musical. Decidido a sentir Deus, recorri aos mestres clássicos. “Vivaldi” – era o que estava escrito – “Concerto para cordas em Sol Maior – Presto”.

Apanhei os fones de ouvido, ampliei a capacidade sonora e apertei o botão para ouvir a musicalidade divina, no que fui de instantâneo sugado de meu corpo e, em prantos, sucumbi ao estado lastimável de imperfeito homem. As lágrimas me escorriam dos olhos entre soluços e em minha mente só havia um profundo sentimento de pedido por piedade. Piedade, meu Pai… Piedade por ser tão frágil, tão pequenino e achar-me tão grande, tão imponente, tão maior do que realmente sou.

Obrigado, Pai, por permitir venham até nós estes médiuns da beleza, os fruidores da Harmonia Divina, que repartem conosco essas minúsculas pérola que, ao lado de nossa arte, são como um sopro de vida, renegando a nossa música aos piores lugares do submundo. Um desejo ardente de poder sentir o mesmo que o compositor Vivaldi inundou meu coração e fiquei ali, sozinho no mundo, unido com ele.

Troquei a música. Inspirado por um outro irmão querido, abreviei minha chegada ao estado sublime, dando início a ouvir a Ária de Bach. Não conseguia abrir os olhos. Fui envolvido por sentimentos tão belos, tão elevados, que me sentia o pior dentre os homens, tal qual havia lido entre os livros. A angústia de estar preso à matéria, o remorso por não ter ainda lutado para estar em mundos melhores, para deleitar-me com a beleza verdadeira, com a música imaterial, enfim, nada era tão doloroso como aquela doce harmonia que me fazia brilhar por dentro, no Espírito.

A “Sinfonia nº 6 em Fá (Pastoral)” de Beethoven iniciou logo depois e eu tampouco me contive em lágrimas. Eu não tinha forças, não tinha eixo, não sabia mais quem eu era. A Harmonia tomara meu Espírito e eu lutava para manter-me naquele estado, no que apresentava grande dificuldade, devido à pressão da matéria que não facilitava meu vôo. Chorava como uma criança presa.

Minha tela mental foi do negro completo à sublime imagem de duas crianças: um menino doce, com olhos que pareciam o amor do Cristo e uma linda menina, que tímida, olhava-me de lado, sorrindo. Meus filhos*! Eram meus filhos, me abraçando e amparando em meu estado lastimável e, tão logo me apercebi da situação, as lágrimas estancaram e eu era outra pessoa. “Coragem! Há espíritos por vir, há trabalho a fazer! Ponha-se em estado de concentração e recomponha-se! Não chora pelas tuas misérias, mas, consolado, luta para que a tua vida seja digna de que te levemos a conhecer esses mundos que, hoje, só conheceis pelos livros…”

Pleno da certeza do dever a ser cumprido, sequei as lágrimas, repensando tudo aquilo que iniciara uma cadeia de pensamentos e sentimentos em mim, poucas horas antes.

O que é Arte Espírita? Se me perguntarem, não o saberei dizer, pois que se a Harmonia é o Sentimento, como traduzir em palavras, em notas e cores tal coisa? Mas eu senti. Durante alguns minutos, eu senti. Senti mesmo tal qual Kardec fala: no silêncio e na solidão, em comunhão íntima com Deus. Senti e, dessa experiência, ninguém saberá o que, de fato, ocorreu.

Com o desejo de dividir este último acontecimento em minha vida e impossibilitado de fazê-lo sem as devidas investidas da linguagem mais artística, da qual peço perdão pelo uso, deixo aqui este momento, que poucos lerão, ínfimos entenderão e nenhum sentirá, como eu senti. São só palavras mortas no papel digital.

Que os Bons Espíritos permitam que, cada vez mais, bebamos a água da Arte Plena. Sejamos corajosos e busquemos a Beleza.”

Paz.

* eu e minha esposa ainda não recebemos os nossos filhos, que estão para chegar, logo o contato que tive com ambos foi extra-corpóreo em um curtíssimo momento de êxtase.


André Luís Corrêa
Equipe do Blog


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